O Bicho Manjaléu
Contos brasileiro

Uma vez existia um velho casado, que tinha três filhas
muito bonitas; o velho era muito pobre e vivia de fazer gamelas para vender.
Quando foi um dia, chegou à sua porta um moço muito formoso, montado num belo
cavalo e lhe falou para comprar uma de suas filhas.
O velho ficou muito magoado, e disse que, por ser
pobre, não havia de vender sua filha. O moço disse-lhe que, se não lha
vendesse, o mataria; o velho intimidado vendeu-lhe a moça e recebeu muito
dinheiro.
Retirando-se o cavaleiro, o pai da família não quis
mais trabalhar nas gamelas, por julgar que não o precisava mais, de então em
diante; mas a mulher instou com ele para que não largasse o seu trabalho de
costume, e ele obedeceu.
Quando foi na tarde seguinte, apresentou-se um outro
moço, ainda mais bonito, montado num cavalo ainda mais bem aparelhado, e disse
ao velho que queria comprar uma de suas filhas. O pai ficou incomodado;
contou-lhe o que tinha sucedido no dia antecedente, e recusou-se ao negócio. O
moço o ameaçou também de morte, e o velho cedeu.
Se o primeiro deu muito dinheiro, este ainda deu mais
e foi-se embora.
O velho de novo não quis continuar a fazer as gamelas
e a mulher o aconselhou, até ele continuar. Pela tarde seguinte, apareceu outro
cavaleiro ainda mais bonito, e melhor montado, e, pela mesma forma,
carregou-lhe a filha mais moça, deixando ainda mais dinheiro.
A família cá ficou muito rica; depois apareceu a velha
pejada e deu à luz a um filho, que foi criado com muito luxo e mimo.
Quando chegou o tempo de o menino ir para a escola, um
dia brigou com um companheiro, e este lhe disse:
— Ah! Tu cuidas que teu pai foi sempre rico!… Ele hoje
está assim, porque vendeu tuas irmãs!…
O rapazinho ficou muito pensativo e não disse nada em
casa; mas quando foi moço, lá num dia se armou de um alfanje e foi ao pai e à
mãe e lhes disse que lhe contassem a história de suas três irmãs, senão os
matava. O pai lhe teve mão, e contou o
que se tinha passado antes de ele nascer. O moço então pediu que queria sair
pelo mundo para encontrar suas irmãs, e partiu.
Chegando
em um caminho, viu numa casa três irmãos brigando por causa de uma bota, uma
carapuça e uma chave. Ele chegou e perguntou o que era aquilo, e para que
prestavam aquelas coisas.
Os três irmãos responderam que àquela bota se dizia ”Bota,
me bota em tal parte!” e a bota botava; à carapuça se dizia: “Esconde-me,
carapuça!” e ela escondia a pessoa que ninguém a via; e a chave abria qualquer
porta.
O moço ofereceu bastante dinheiro pelos objetos, os
irmãos aceitaram, e ele partiu. Quando se encobriu da casa, disse: “Bota, me
bota na casa de minha irmã primeira”.
Quando abriu os olhos, estava lá. A casa era um
palácio ornado e rico, e o moço mandou pedir licença para entrar e falar com a
irmã que estava feita rainha. Ela não queria aparecer, porque dizia que nunca
tinha tido irmão. Afinal, depois de muita instância, deixou o estrangeiro
entrar; ele contou toda a sua história, e a irmã acreditou e o tratou muito
bem.
Perguntou-lhe como poderia ter chegado ali àquelas
brenhas, e o irmão disse-lhe ter o poder da bota. Pela tarde, a rainha se pôs a
chorar e o irmão lhe indagou da razão, ao que ela respondeu que seu marido era
o rei dos peixes e, quando vinha jantar, era muito zangado, em termos de acabar
com tudo, e não queria que ninguém fosse ter ao seu palácio…
O moço disse-lhe que por isso não se incomodasse, que
tinha com que se esconder e não ser visto, e era a carapuça. Pela tarde veio o rei
dos peixes, acompanhado de uma porção de outros, que o deixaram na porta do
palácio e se retiraram. Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas,
dizendo:“Aqui me fede a sangue real!” do que a rainha o dissuadia; até que ele tomou
banho e se desencantou num belo moço.
Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que
fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí,
apareça.
Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito
considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado
para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe
restavam duas irmãs a visitar.
O rei lhe indagou que préstimo tinha aquela bota, e quando
soube do que valia, disse:
— Se eu a apanhasse,
ia ver a rainha de Castela.
O
moço, não querendo ficar, despediu-se e, no ato da saída, o cunhado lhe deu uma
escama, e disse-lhe:
— Quando você estiver em algum perigo, pegue nesta
escama, e diga:
“Valha-me
o rei dos peixes”.
O moço saiu e quando se encobriu do palácio, disse:
“Bota, me bota em casa de minha irmã segunda”; e, quando abriu os olhos, lá
estava. Era um palácio ainda mais bonito e rico do que o outro. Com alguma
dificuldade da parte da irmã, entrou e foi recebido muito bem. Depois de muita
conversa, a sua irmã do meio pôs-se a chorar, dizendo que era “por ele estar
aí, e, sendo seu marido o rei dos carneiros, quando vinha jantar, era dando
muitas marradas, em termos de matar tudo”.
O irmão apaziguou-a, dizendo que tinha onde se
esconder. Com poucas, chegou uma porção de carneiros com um carneirão muito
alvo e belo na frente; este entrou e os outros voltaram.
Chegou o rei muito aborrecido, dando pulos e pancadas,
dizendo: “Aqui me fede a sangue real!” do que a rainha o dissuadia; até que ele
tomou banho e se desencantou num belo moço.
Seguiu-se o jantar, no qual a rainha perguntou-lhe:
— Se aqui viesse um irmão meu, cunhado seu, você o que
fazia?
— Tratava e venerava como a você mesma; e se está aí,
apareça.
Foi a resposta do rei. O moço apareceu e foi muito
considerado. Depois de muita conversação, em que contou sua viagem, foi instado
para ficar ali, morando com a irmã, ao que disse que não, porque ainda lhe
restava uma irmã a visitar.
Na despedida, o rei dos carneiros deu ao cunhado uma
lãzinha, dizendo:
— Quando estiver em perigo, diga: “Valha-me o rei dos
carneiros”.
Também disse, depois de saber a virtude da bota:
— Se eu pegasse esta bota, ia ver a rainha de Castela.
O moço foi reparando nisto e formou-se logo consigo o
plano de ir vê-la.
Saiu,
e pela mesma forma foi à casa de sua irmã mais moça. Era um palácio ainda mais
bonito e rico do que os outros dois. O que lá sucedeu foi o mesmo do que nos
palácios das suas irmãs mais velhas. Era o palácio do rei dos pombos, e este,
na despedida, deu ao cunhado uma pena, com as palavras:
— Quando se vir nalgum perigo, diga: “Valha-me o rei
dos pombos”.
Na
despedida, sabendo o rei do préstimo da bota, mostrou também desejos de ir
visitar a rainha de Castela.
Logo que o moço se viu longe do palácio, disse: “Bota,
bota-me agora na terra da rainha de Castela”. Assim foi. Chegado lá, ele
indagou e soube que “era uma princesa que o pai queria casar, e que era tão
bonita que ninguém passava pela frente do palácio que não olhasse logo para
cima para vê-la na janela; mas a princesa tinha dito ao rei que só casava com o
homem que passasse sem levantar a vista”.
O estrangeiro foi passar, e atravessou toda a
distância sem olhar, e a princesa casou com ele.
Depois de casados, ela indagou pela significação
daqueles objetos que seu marido sempre trazia consigo; ele tudo lhe contou, e a
princesa prestou muita atenção ao prestígio da chave.
O rei, seu pai, tinha em palácio um quarto que nunca
se abria, e neste quarto, onde era proibido a todos entrar, estava, desde muito
tempo, trancado um bicho Manjaléu, muito feroz, que sempre o rei mandava matar
e sempre revivia.
A moça tinha muita curiosidade de o ver e,
aproveitando a saída do pai e do marido para uma caçada, pegou na chave
encantada e abriu o quarto. O bicho pulou de dentro, dizendo: “A ti mesmo é que
eu queria!…” e fugiu com ela para as brenhas.
Quando voltaram, os caçadores deram por falta da
princesa, e ficaram muito aflitos. O rei foi ao quarto do Manjaléu, e achou-o
aberto e vazio, e o novo príncipe conheceu a sua chave… Ao depois valeu-se de
sua bota e foi ter aonde estava sua mulher. Esta, quando o viu, estando ausente
o Manjaléu, ficou muito alegre, e quis
ir-se embora com ele. Mas o marido o não consentiu, dizendo que ela ficasse
para
indagar do monstro onde estava a sua vida, para assim dar cabo dele.
O príncipe foi-se embora. Quando o Manjaléu voltou,
conheceu que ali tinha estado bicho homem; a moça o dissuadiu, e quando ele se
acalmou, ela lhe perguntou onde estava a sua vida. O monstro zangou-se muito, e
disse:
— Ah! Tu queres saber de minha vida mais o teu marido,
para darem cabo de mim!… Não te digo, não…
Passaram-se dias, sempre a moça instando. Afinal, ele
foi amolar um alfanje, dizendo:
— Eu te digo onde está minha vida; mas se eu sentir
qualquer incômodo, conheço que ela vai em perigo e, antes que me matem, mato a
ti primeiro, queres?!
A princesa respondeu que sim. O Manjaléu amolou o
alfanje, e disse-lhe:
— Minha vida está no mar; dentro dele há um caixão,
dentro do caixão uma pedra, dentro da pedra uma pomba, dentro da pomba um ovo,
dentro do ovo uma vela; assim que a vela se apagar, eu morro.
O bicho saiu e foi procurar frutas; chegou o príncipe,
soube de tudo e foi-se embora. O Manjaléu veio e deitou-se no colo da moça com
o alfanje ali perto. O príncipe chegou com sua bota à praia do mar num
instante; lá pegou na escama que tinha, e disse: “Valha-me o rei dos peixes!”.
De repente uma multidão de peixes apareceu, indagando o que ele queria.
O príncipe perguntou por um caixão que havia no fundo
do mar; os peixes disseram que nunca o tinham visto, e só se o peixe do rabo
cotó soubesse.
Foram
chamar o peixe do rabo cotó, e este respondeu:
— Neste instante dei uma encontroada nele.
Todos os peixes foram e botaram o caixão para fora. O
príncipe o abriu e deu com a pedra; aí pegou na lãzinha e disse: “Valha-me o rei
dos carneiros!”.
De
repente apareceram muitos carneiros e entraram a dar marradas na pedra.
O Manjaléu lá começou a sentir-se doente, e dizia:
— Minha vida, princesa, corre perigo!
E pegou no alfanje; a moça o foi dissuadindo e
engambelando. Os carneiros quebraram a pedra e voou uma pomba. O príncipe pegou
na pena e disse:
“Valha-me
o rei dos pombos!”. Chegaram muitos pombos e correram atrás da pomba, até que a
pegaram. O príncipe abriu-a e achou o ovo.
Quando estava nisto, lá o Manjaléu estava muito
desfalecido, pegou no alfanje e ia dando um golpe na princesa. Foi quando cá o
príncipe quebrou o ovo, e apagou a vela; aí o bicho caiu sem ferir a moça. O príncipe
foi ter com ela, e levou-a para o palácio, onde houve muitas festas.
(Versão de Sergipe, coletada por Sílvio Romero)